13/05/2007 02h51
Reflexão
Estudei o primeiro e segundo graus na rede pública do Distrito Federal. Naquela época não faltavam professores. O uniforme era exigido. Se chegasse atrasado ou desuniformizado não entrava. Ao chegarmos, organizavam-nos em filas por turma e série. Aprendíamos vários hinos. Acho que até hoje sei o hino do Exército, da Marinha, além de outros. Década de 70, toda sexta-feira havia Hora Cívica. Em posição de sentido, cantávamos patrioticamente o Hino Nacional. A escola era tradicional, mas não tínhamos aulas de Ensino Religioso, portanto, era moderna. Havia questionários de Estudos Sociais, tabuadas, conjugação de verbos e tantos outros "decorebas". No 2ºgrau, foi a vez do curso profissionalizante. Fiz o curso Técnico em Contabilidade no Elefante Branco. A idéia era sair um profissional. Não precisaria fazer faculdade. Mas, a verdade é que os cursos não eram bons. Não atendiam ao mercado como o desejado. No final das contas, nem profissionalizavam, nem preparavam para o vestibular. Nessa fase, a escola era tecnicista. Não só porque o ensino era técnico, mas porque existia uma preocupação com as técnicas aplicadas ao conteúdo e uma valorização maior da burocracia. Hoje, ouço muita afirmação sobre o sentido patriótico dos militares: "naquela época sim, se valorizava os símbolos nacionais". Tudo era pano de fundo de uma peça em que os atores desconheciam o que realmente acontecia. Realmente, o mais importante nós não sabíamos. Não tínhamos consciência de vivermos sob um regime de exceção. Fala-se muito nas mortes, nas torturas, que sem dúvida, são trágicos fatos históricos. Mas, não se fala dessa geração crescida e formada (ou deformada) pela ditadura. Só agora, parei para pensar no que éramos. A obediência, um valor extremamente ressaltado, cultivado...Não podíamos refletir, pensar. Tínhamos apenas que obedecer cegamente. No 2ºgrau, lembro-me da primeira greve de professores da Fundação. 1979, ares de mudança. Os alunos ajudaram os professores a fazerem piquetes. Já não éramos tão obedientes e ouvíamos vozes como a voz de Lúcia Ivanov, professora de português que sempre nos convidava à reflexão dos textos e contextos. A experiência não se passa, a vivência não se passa. Só quem experimenta vivencia o que experimentou. Os fatos de supra-estrutura escondem coadjuvantes da História e os processos realmente vividos. Os bastidores do período de exceção merecem ser estudados, sobretudo aproveitando a geração que nasceu e cresceu com esse regime ditatorial.
Publicado por Siarom Selopreih
em 13/05/2007 às 02h51